terça-feira, 18 de novembro de 2014

LENÇO DE TABAQUEIRO



Ninguém imagina certamente um agricultor de fato e gravata a lavrar a terra ou um professor vestindo pijama na sala de aulas. Vem isto de propósito do uso do lenço de tabaqueiro o qual muitas vezes ranchos e grupos apresentam enrolado ao pescoço dos componentes masculinos . Outros porém em meu entender de forma mais apropriada, optam por o ter no bolso com a ponta de fora , como sucede com muitos ranchos e grupos de folclore.


O lenço tabaqueiro surgiu entre nós como um acessório, no inicio do século XVII em consequência directa do consumo do tabaco, hábito trazido pelos espanhóis do continente americano. O tabaco era consumido pelos indígenas que acreditavam nos seus poderes medicinais, razão pela qual o consumiam em ocasiões cerimoniais, o tabaco era mascado ou aspirado sob forma de rapé, tornando-se um hábito social que perdurou até aos finais do século XIX altura que se começou a generalizar o consumo do tabaco sob forma de cigarros.

O consumo do rapé consistia em levar o tabaco em pó às narinas a fim de ser fortemente aspirado, gesto que provocava o espirro ou o pingo no nariz, sendo estão considerado um óptimo estimulante nasal. 

Esta reacção requeria naturalmente o uso de um pano, geralmente de algodão, para efeitos de higiene pessoal, passou a ser dobrado e guardado no bolso. Isto nada tem a ver com costume entretanto surgido do uso de um lenço de seda ao pescoço, o qual se apresenta em substituição da secular gravata, nem tão pouco o lenço de cabeça outrora utilizado pelas mulheres.

Foi em Alcobaça que em 1774 se instalou em Portugal a primeira fábrica de lenços, cambraias e fazendas brancas, ao tempo do reinado de D. José I , razão pela qual esse género de lenço também é conhecido por « o Alcobaça » . Ao longo do tempo produziu uma grande variedade de padrões, sendo que geralmente apresentam fundo vermelho, azul ou amarelo, com barras brancas de diversas cores.


Compreensivelmente, tratando-se de um objecto de higiene pessoal, a ninguém lembraria enrolar ao pescoço o referido lenço que servia para assoar o nariz do efeito provocado pelo cheiro do rapé. Mas com efeito alguém teve a triste ideia, de o dobrar ao meio e atando-o ao pescoço , gesto que se multiplicou por numerosos grupos e ranchos de folclore que o assimilaram como se de algo genuíno se tratasse ou seja, ele fosse realmente usado ao pescoço do homem no século passado. Quero dizer que os responsáveis desses grupos não se deram ao trabalho de investigar, limitando-se a copiar aquilo que simplesmente os impressionou e pareceu bem.



Do ponto de vista etnográfico, não pode o trajo com referência a uma determinada época e região em concreto ser apresentado de uma determinada forma ou ser-lhe acrescentado algo porque assim nos agrada, devendo limitarmo-nos a identificar como as pessoas realmente se vestiam, independentemente da eventual beleza e exuberância do vestuário que era usado, como tal o lenço de tabaqueiro é apresentado por grupos folclóricos deve ser repensada!

Um comentário:

nuno virgilio disse...

O uso so lenço tabaqueiro ao pescoço tem a ver com com o trabalho do campo, com o suor e com os trabalhos onde havia mto pó. O lenço era atado ao pescoço de forma a evitar que o pó entrasse tanto pelo pescoço abaixo e que o suor que escorria da cabeça, cheio de pó, fosse de certa forma absorvido pelo lenço. Não podemos esquecer que não era todos os dias que se tomava banho, mto menos que se lavava a roupa. O lenço mtas vezes levava uns nós nos cantos e enfiava-se na cabeça por debaixo do chapéu ou até mesmo para proteger do sol na falta de chapéu, pois nem todos podiam comprar chapéu.