terça-feira, 13 de março de 2012

O trajo de Lavradeira das mulheres da região sul de Braga.


A vontade de embelezar o seu trajo e de o personalizar, levam as mulheres a utilizarem diversos artifícios para decorarem as peças do de linho possui um folho bordado a ponto cruz que guarnecer o decote. A manga seu vestuário.
Aplicam peles ou penas negras dos galos que introduzem no próprio tecido, que enfeitam e enriquecem com vidrilhos e bordados.
A alva camisa é justa a meio do braço, sem punho, terminando com um entremeio de renda e bordado.
A saia, de baetilha preta, é muito ampla, franzida na cintura e guarnecida, em baixo, com barra de veludo, fita de cetim, veludo aplicado e bordado de vidrilhos. O colete branco, apertado na frente, é decorado com bordados com fio vermelho. Avental de veludo preto é bordado com vidrilhos e guarnecido com pele. Presa à cintura, uma algibeira em forma de coração estilizado e lenço de pedidos decorado com motivos da simbologia amorosa, legenda e renda manual. Cruzado sobre o peito usa um lenço estampado e franjado. Na cabeça, um lenço atado no alto. Calça meias de malha de algodão branco rendadas e chinelas pretas pespontadas.
Brincos à rainha emoldura o rosto e ao pescoço, fio de contas com borboleta e cordão com coração.
Referência Bibliográfica: O Trajo Regional em Portugal, Tomaz Ribas

Porbérbios e Quadras Populares

Estas quadras foram fruto de uma recolha que eu fiz junto de vários idosos residentes no lar de idosos do Instituto S.José em Oliveira S,Mateus  V.N.Famalicão-Braga


A cantar ganhei dinheiro
A cantar se me acabou
O dinheiro mal ganho
Água deu água levou

Não te rias de quem chora
Que é coisa que Deus ordena
Pode a roda desandar
E penares por igual pena

Não tenho mais que te dar
Nem tu mais que me pedir
aqui tens meu coração
E a chave pró abrir

Todos nós temos defeitos
Digo isto sem ar de riso
Alguns são tortos do corpo
Outros aleijados do juízo








A Serragem da Velha

A quadra da Quaresma sempre foi, para o povo de certos locais do Minho, época de arreigadas tradições e profunda religiosidade. Temente a Deus, o povo encarava o tempo de preparação para a Páscoa com o maior respeito. Era tempo de luto e de silêncio. Até a carne era banida das suas refeições. A partir de Terça-Feira Gorda até Sexta-Feira Santa estavam «proibidas» as cantorias e outras manifestações de alegria, todavia, precisamente a meio da Quaresma, mandava a tradição que as restrições impostas fossem esquecidas por um dia: o dia da Serragem da Velha. Tratava-se de uma brincadeira humorística, satírica e crítica, que tinha a intenção de apontar os defeitos ou as virtudes de pessoas socialmente conhecidas. A representação acontecia numa quarta feira, precisamente a meio da Quaresma, no monte mais alto das freguesias, e era feita num cenário que fazia lembrar um misto de tribunal e cartório notarial, consistindo na leitura de um hipotético testamento feito por um velha moribunda que deixava os seus bens aos familiares e amigos. O “Tabelião da Comarca” iniciava o ritual lendo em voz alta os preceitos legais que fundamentavam a abertura do “testamento”. Imediatamente a seguir, “Tabelião e Relator” davam a conhecer o veredicto do testamento por entre sons ruidosos emanados de búzios, cornos de boi, funis… que os “parentes” mais próximos da moribunda se encarregavam de emitir. As suas vozes, ampliadas por acção de um funil em chapa, aqui deixo um exemplo do que se fazia, e recentemente tomei conhecimento  esses rituais voltam em certas terras a ser realizados,  eis um exemplo das sentenças  :

Oh velha,
Que deixas ao Manuel Moreira?
A porca de sete mamas
E a cadela parideira.

Deixo-lhe ainda uma vaca,
Com um toiro na desmama,
E o penico bem cheio,
“P’ra” pôr em cima da cama.

Oh velha,
Que deixas ao Quim Padeiro?
Uma galinha pelada
E um pau de marmeleiro.

Deixo-lhe a pia dos porcos
E a casota do cão,
A corte da burra velha
E o boi da cobrição…

Os bens considerados menos valiosos eram distribuídos em favor das raparigas das freguesias, estendendo-se, geralmente, também aos seus namorados. O “Tabelião e Relator”, cientes da importância da sua função, continuavam:

Oh velha,
A quem deixas o presunto?
Ao Luís e à Joaquina
Que são dois barrigas d’unto.

Oh velha,
A quem deixas tu a horta?
À Maria do Armindo
Que tem cara de cú “p’rá” porta.

Aos rapazes mais jovens só lhes era permitido tomar parte na Serragem da Velha se demonstrassem perante os mais velhos já terem pelos genitais

quinta-feira, 8 de março de 2012

A Educação de Ontem e a Educação de Hoje



Sou pai de dois filhos. Há anos atrás, quando os dois meus filhos foram pela primeira vez para a escola, senti em mim um pequeno estremecimento, um arrepio, só em pensar que os meus filhos iam começar a sua verdadeira vida ou melhor a sua verdadeira educação. Logo procurei incutir-lhes o que aprendi com os meus pais e os meus professores. Por sorte, acho que o consegui, mas é com tristeza que me apercebo que isso agora é muito difícil para não dizer que é uma utopia, desvirtua-se por completo essa educação e começa a imperar valores como a DESONRA, INGRATIDÃO, GANANCIA, MENTIRA e o SALVE-SE QUEM PUDER, envergonhando a maior parte dos nossos antepassados que podiam não ter um grande naco de carne para comer, mas eram esses os valores que eram servidos a cada minuto… Espero que este novo modo  de pensar de educar seja banido e retomemos os valores da SOLIDARIEDADE, da AMIZADE da HONESTIDADE em resumo da VERDADEIRA EDUCAÇÃO.
Sei que não sou jovem na idade, mas o meu pensar ainda o conservo jovem, por isso, faz-me conservar os valores que aprendi com os meus pais e professores e alguns verdadeiros amigos.

Portanto é  com muito orgulho que pertenço á geração do "Por favor”, “Bom Dia”, “Boa Tarde”, “Com licença", "Até logo”, “Obrigado", do respeito aos pais aos jovens  e idosos, de pedir permissão, de saudar com sorriso, de amar as pessoas... Pelo que elas são e não pelo que me dão ou têm para me dar. Fui ensinado a tratar as pessoas com educação, carinho, lealdade e honestidade.

sábado, 3 de março de 2012

Será a defesa da autenticidade no Folclore uma causa perdida?

A preocupação relativamente à necessidade de se preservar a autenticidade dos usos e costumes do povo na representação dos grupos folclóricos parece ser uma batalha perdida. Em regra, não se realiza a pesquisa nem o estudo, não se investiga nem questiona, apenas se limita a copiar aquilo que já está feito e é apresentado por outros grupos folclóricos, atuais ou já extintos. Tudo o que alguma vez foi apresentado e até elogiado é tido como uma referência inquestionável.

Quando o erro é por demais evidente e fica demonstrado, por maior que seja a insistência com que o mesmo é apontado, não se vê na maioria das vezes qualquer vontade em corrigi-lo. Pior ainda, qualquer reparo que possa ser feito é encarado como um ato de agressão e jamais como uma crítica construtiva: os grupos fecham-se sobre si em atitude de defesa e repelem o que consideram uma investida.

Desde os começos do século XX até aos nossos dias, o folclore foi absorvendo uma série de alterações provocadas por razões económicas, sociais e até políticas. O particular empenho do Estado Novo neste domínio, nomeadamente através das Casas do Povo, da FNAT e da Mocidade Portuguesa deixou marcas de tal forma profundas que, salvo raras exceções, os atuais grupos folclóricos tornaram-se herdeiros dessa tradição, convencidos de que aquilo que representam é o mais genuíno da cultura popular portuguesa.

Pode utilizar-se botões de plástico, calçado de sola de borracha, chapéu à toureiro, elásticos nas chinelas, saias curtas, lenços à cintura, autocolantes, lenços tabaqueiros ao pescoço, pompons nas castanholas, óculos modernos e outras fantasias e, ao mesmo tempo, afirmar-se que se estão a representar costumes dos finais do século XIX, o que há de mais genuíno no folclore, não raras as vezes interpretado por grupos que se apresentam muito bem fardados como se um grupo de majoretes se tratasse. O mesmo se verifica em relação às denominações frequentemente escolhidas para identificar os grupos, à área de representação que procuram abranger, à estilização das danças, adulteração dos trajes, ao ritmo acelerado da atuação, exibicionismo, coreografias inventadas e quadros pretensamente etnográficos ao jeito das rábulas de Parque Mayer e inclusão de músicas e cantigas que nada têm a ver com o folclore mas que são úteis para a realização do espetáculo.

E porque de um espetáculo se trata, a autenticidade é frequentemente preterida em proveito do elemento lúdico. Mais ainda, a produção de um bom espetáculo de folclore, um tanto ao jeito das casas típicas onde se exibe folclore para turistas, constitui uma forma de garantir bons contratos para atuações sem os quais não há folclore para ninguém… ele é o saber do povo mas os grupos necessitam de receitas para sobreviver e alguns artistas não trabalham sem remuneração, como sucede frequentemente com alguns ensaiadores e tocadores de concertina e acordeão!

Mau grado o panorama a que se assiste no associativismo folclórico, muitos grupos consideram-se sem mácula e, por conseguinte, sem qualquer necessidade de proceder a eventuais correções ou melhorias. Mais ainda, porque a filiação na Federação do Folclore Português é, em grande medida, encarada como uma espécie de certificado de garantia, todos os grupos ditos folclóricos, por mais coxos que se apresentem, arrogam-se no direito de serem filiados naquele organismo, representando a sua recusa uma tremenda injustiça e originando uma profunda frustração.

A realidade acaba sempre por sobrepor-se à nossa vontade. De nada serve procurarmos questionar aquilo que representamos se ninguém está interessado sequer em analisar, debater, partilhar conhecimentos, quanto mais em alterar seja o que for. Ainda que adulterado, o folclore é algo que nos anima:

- Siga a rusga!

                                                                                 

                                                                                       Do Portal do Folclore
                                                                                       
                                                                                        Carlos Gomes
   
                                                                                      Jornalista, Licenciado em História

Porque os políticos desprezam o Folclore?

Uma vez mais, por ocasião da passagem de ano, a comunicação social vai mostrar-nos um grupo folclórico proveniente de uma região algures do país a cantar as janeiras ao Presidente da República e ao Primeiro-ministro e a serem recebidos com grande hospitalidade nas respectivas residências oficiais. Trata-se de um momento particularmente enternecedor porquanto ficamos plenamente persuadidos de que, ao receber em suas casas a gente simples que lhes bate à porta para lhes pedir alvíssaras e entoar umas quadras ao jeito popular, suas excelências partilham dum profundo sentimento de pertença ao povo pelo que, tal como este, apreciam os gestos humildes e a nossa cultura tradicional.

Mas, quando procuramos recordar aquilo que, enquanto governantes, fizeram pela preservação do nosso folclore enquanto parte integrante da cultura do povo português, constituindo o seu próprio património imaterial, somos assaltados pela sensação de que fomos burlados e que, afinal de contas, toda aquela exibição perante as câmaras de televisão que ali são chamadas a registar o acontecimento não passa de uma farsa. Aliás, também para as estações televisivas esse constitui o único pretexto para que um grupo folclórico possa ser transmitido. Mas, ainda assim, continuaremos a bater-lhes à porta para lhes pedir alvíssaras!


Aqueles que ao folclore dedicam grande parte das suas vidas são uma espécie de “pau para toda a obra”. Em tempo de campanha eleitoral, lá estão os ranchos folclóricos a animar os comícios ou, seguindo atrás dos candidatos, a rufar os bombos para que o povo se aproxime. Frequentemente, a animação reduz-se à tocata que desse modo participa disfarçada como se de uma mera claque partidária se tratasse. O entusiasmo dos folcloristas que participam em tais campanhas é proporcional à probabilidade do candidato vir a ser eleito ou, porventura, do contrato estabelecido com vista à sua participação e prende-se inevitavelmente com a perspectiva de poder vir a receber alvíssaras… por isso, correm atrás de qualquer um, desde os que concorrem para os cargos mais elevados aos que apenas anseiam o governo da paróquia.


A disponibilidade de alguns ranchos folclóricos não tem limites, indo ao ponto de participar nas manifestações sindicais como um palhaço anima o circo. É que, como facilmente se deduz, caso a actuação não seja imediatamente paga, sempre existirá a esperança de algum sindicalista vir a ocupar um cargo político. E, caso tal hipótese venha a concretizar-se, poderá o dito rancho vir a receber alvíssaras.


Contudo, aqueles que em tais ocasiões se fazem rodear por grupos folclóricos que os ajudam nas suas campanhas ou vão bater à sua porta para lhes cantar as janeiras são precisamente os mesmos que frequentemente se referem ao folclore de forma depreciativa, insistem em lembrar que foi um dos três efes com que o anterior regime alienava o povo e não o consideram nos grandes eventos culturais nem lhe conferem apoio e visibilidade ao contrário do que sucede com outros investimentos em realizações de interesse cultural duvidoso.


Todos nós sabemos o desprezo com que o folclore é tratado, atitude que é extensível a todos quantos a ele se dedicam. Mais ainda, sentimos o estigma a que o mesmo foi votado por, alegadamente, ter sido utilizado como instrumento de propaganda do Estado Novo, deduzindo-se desse facto uma cumplicidade e um saudosismo reaccionário por parte daqueles que amam aquilo que de mais genuíno nos pertence. Desdém, aliás, que não exclui milhares de jovens que jamais chegaram a conhecer o anterior regime. Lamentamos constantemente a falta de apoio a que o folclore é votado. Mas, respeitosamente curvados, continuaremos a bater-lhes à porta na expectativa de algum dia poder o folclore vir a receber alvíssaras!


                                                          Do Portal do Folclore

                                                            Carlos Gomes

                                                           Jornalista, Licenciado em História

COMO VIVIA O MINHOTO NOS COMEÇOS DO SÉCULO PASSADO?

Sob o título “Como vive e de que vive o agricultor do Minho”, a revista “Ilustração Portugueza”, na sua edição nº 9 da II Série de 1906, publicou uma extensa reportagem da autoria de F. Neves Pereira, fazendo um retrato social do Minho nos começos do século XX, descrevendo o modo de vida das suas gentes no ambiente rural e, sobretudo, das dificuldades que enfrentava para sobreviver sem perder a alegria da vida.

   No único aposento da casa, coberta de colmo esburacado ou telha vá, de rudes paredes de pedra sobreposta, por cujas fendas entra o frio e o vento, nasce a criança minhota, sem assistência de parteira, no mesmo catre bárbaro do noivado. Uma hora antes de dar á luz, a mãe põe ao fogo do lar a trempe de ferro com agua para o banho. O marido está nos campos a sachar, a lavrar ou a podar as vinhas. Vai uma vizinha chama-lo para ver o filho, que nasceu. No dia seguinte é o batisado. Quatro dias depois, a mãe aparece na eira com o filho ao colo. Passada uma semana, leva-o com sigo para o campo ou para o monte. Durante dois anos, – ás vezes mais, – lhe dá o seio. Já o pequeno come boroa e ainda mama. Exposta ás intempéries, ao calor e ao frio, ao sol e á chuva, como um animalsinho bravio nascido no monte, sob uma lapa, a criança ou sucumbe ou fortalece. As mais das vezes cria-se, resistente e forte, nesse severo regime de selecção natural. Apartada do leite, é então invariavelmente abandonada á educação do próprio instinto. Aos cinco anos ensinam-lhe a resar. Aos sete anos confiam-lhe a guarda dos bois. A criança passa já os dias no monte, solitária, pastoreando o gado. O monte é a sua primeira escola e quase sempre a única. Aos dez anos, começa a preparar-se para a comunhão, indo á doutrina. Aos doze anos comunga. E a vida de trabalho ininterrupto principia. Rapaz ou rapariga, que já é de comunhão, é uma criatura emancipada. Se os pais são pobres, vão servir. Se são filhos de um lavrador remediado, fazem em casa o tirocínio árduo da lavoura. O criado de servir começa por ganhar o salário de dois mil réis por ano e os usos. Mais tarde, dos dezoito aos vinte anos, chegam a ganhar, os mais diligentes, ao serviço de lavradores mais abastados, três moedas. Mas este salário é um fenómeno. Os usos variam com a idade dos serventes: uma a três camisas de estopa, um ou dois pares de calças de cotim ou saias de riscado, um colete e uns tamancos. Aos rapazes, as amas, por contrato, remendam-lhes e lavam-lhes a roupa.

As relações entre estes servos pobres e estes amos tão pobres como eles são familiares sem isenção de respeito. O minhoto tem, como o romano, seu antigo senhor, a noção inata da hierarquia.

Por volta dos vinte e dois anos, o moço de lavoura, tendo concluído a sua aprendizagem, e livre de soldado, casa-se. É tão raro ficar um lavrador ou lavradeira sem casar como haver moço que não lute tenazmente, para se furtar ao tributo do sangue. O casamento é no Minho a base essencial á independência. Moço ou moça que não case fica condenado a servir toda a vida ou a trabalhar a jornais. Toda a economia social desta vasta província portuguesa assenta sobre a constituição da família. Quando se fizer o estudo social minucioso, que de há muito devera estar concluído, da população do reino, ver-se-há que a densidade do Minho, a intensidade das suas culturas e a sua imensa capacidade tributária derivam do seu regímen familiar. Dai e porque a caserna contamina o minhoto com o desprezo pela labuta da terra e lhe predispõe o organismo para exigências maiores de alimentação, de vestuário e de conforto, o recusar sistematicamente os pais a mão das filhas a todo o pretendente que um dia vestiu farda. Ter sido soldado, ter comido o rancho, ter dormido numa tarimba, é um ser  repudiado. O soldado conheceu no quartel uma vida melhor. Esse passado afasta-o da comunhão dos rústicos. Implacavelmente, o campo expulsa-o para a cidade, de onde ele veio. Por isso o lavrador se despoja de quanto tem para livrar o filho de soldado e casalo. O casamento é a aspiração unânime, o fim para que tendem todos os esforços, o prémio conquistado com as canseiras as mais indescritíveis, quando, afinal, esse casamento representa apenas a pobreza a dois, o trabalho a dois. O idilio, meio sensual e meio lírico, iniciado nas romarias, nas desfolhadas e no adro da Igreja, termina com a boda para se converter numa obstinada refrega pelo pão.

Ordinariamente, a noiva leva para o casal um cordão e umas argolas de oiro e o noivo as alfaias indispensáveis para o granjeio das terras. Os parentes e os amigos oferecem aos esposados, alguns duas galinhas, outros uma raza de milho ou de centeio, outros dois pedaços de pano de linho, um colher de ferro para a panela, meia dúzia de tigelas ou de pratos de barro, meio alqueire de feijão, a pá para o forno, um molho de lenha… Se um deles é filho de lavrador abastado, este abona-lhes o gado: uma junta de bois medianos para principiar e uns touros novos para a engorda. Algumas vezes, raras, levam ainda em dote uma ceva morta e meia pipa de vinho. O primeiro dia de casados é para os noivos pobres o primeiro dia de trabalho árduo. Vão amanhar os dois umas terras pequenas, que tomam de renda barata; arranjam um creadito novo, de pequeno ganho, que os ajude no mourejar dos campos e a ama nos arranjos da casa. Desde o nascer do dia até noite fechada trabalham ambos no campo ou na eira. À noite, até altas horas, a mulher fia, junto da lareira apagada, a teia com que há de fazer as primeiras camisas e os primeiros lençóis. O homem descansa da labuta do dia, ajudando a mulher a dobar o fiado.

Feitas as podas, as mergulhias, os enxertos e as sementeiras, e antes das colheitas, quando a lavoura abranda, o homem vai ás feiras, vende os bois, compra outros mais baratos e ganha alguns tostões em carretos de pedra. A mulher, no entanto, cora a teia, lança ninhadas de frangos e galinhas e engorda os cevados… para vender. Mas esses pobres teem uma riqueza: são independentes. Enquanto pagarem com o que a terra lhes dá a renda por que a tomaram, essa terra que eles lavram e cavam e semeiam pertence-lhes. É dessa terra, adubada com o seu suor, que lhes vem, com o sustento, o orgulho de um domínio que se lhes afigura sem partilha. São deles as aguas, os campos, as árvores, os montes, a eira e a casa. Não existe para eles, como para o operário, um patrão dominador e imperativo. Só eles mandam na sua fabrica, de que são, simultaneamente, rendeiros e operários.

O alimento deste casal de noivos pobres reduz-se a pouco mais do que a caldo e pão. O homem que trabalha da aurora até á noite, a mulher que o acompanha na sua lida incessante, comem menos do que as crianças da cidade.  Se a gravidez a não deformou já, é uma mocetona corada e jovial, de larga bacia fecunda, de grandes seios, de roliços braços de trabalhadora e de amorosa. O homem é musculoso e rijo. Ambos cantam enquanto sacham. Nenhuma tristeza perturba esse casal pacifico e laborioso. Gosam amplamente os dois  saúdes humanas: a moral e a física, de cuja união resultam as felicidades perfeitas. O trabalho é o seu regime moral. Veja-se também em  que consiste o seu regime alimentar na base da saúde do corpo.

O caldo destes trabalhadores infatigáveis reduz-se a algumas couves galegas, apanhadas na horta, a alguns feijões – poucos, porque são caros, – e um magro fio de azeite como adubo. O pão é de milho e centeio, cozido em grandes fornadas de dois ou três alqueires… para durar, tornar-se rijo e render mais! O cozer pão a miúdo é prejudicial á economia. Porque  come-se mais enquanto é fresco e quantas mais vezes se acende o forno mais lenha se consome! Raras, muito raras vezes,a sardinha é merenda, comem os lavradores, como presigo de longe a longe.Quando o sardinheiro as vende a mais de 5 ao vintém, a mulher aventura-se a gastar dez réis nesse luxo supérfluo!

Quando um quartilho de azeite, nas aldeias do Minho podia custar seis ou sete vinténs, durava a um casal pobre de 15 dias a um mês, com isto está  completado o quadro impressionador da espantosa economia minhota .

Anos há, porém, em que o pão escasseia, a arca se esgota, e o preço do alqueire de milho sobe, como há  anos, acima de oito tostões. Então, o lavrador passa a comer pão de centeio e semeia batatas para substituir o tesouro alimentício da boroa de milho. Á salgadeira – os que a teem – vão apenas pelas festas do ano: o Entrudo, a Pascoa e o Natal, ou em dias de trabalho extraordinário, quando não podem de todo, sozinhos, granjear as terras, e rogam o auxílio dos vizinhos, que vêem ajudar, sem jornal, só pela mantença.

Uma família de lavradores minhotos que, não satisfeita com as dádivas generosas da terra: pão, batatas, hortaliça, feijão, fruta e lenha, gasta em alimentação, vestuário e demais necessidades da vida para cima de dez tostões por mês, ou é rica ou está perdida!

Parecendo á primeira vista impossível que tão insignificante quantia possa chegar ao custeio de uma casa, verifica-se, em face de um ligeiro orçamento, que ela é suficiente e não é mesmo atingida as mais das vezes.

O exíguo orçamento de um casal de lavradores no Baixo-Minho pode resumir-se, para as primeiras necessidades, a quatro verbas únicas e modestíssimas:

Azeite…………...240 réis

Sardinhas…..……100 réis

Sal…………….….20 réis

Sabão…………….60 réis

Ou um total de    420 réis


Ficam de fora as despesas de vestuário. Uma andaima de roupa para homem, que pode custar aproximadamente 8$000 réis, dura entre 5 e 10 anos. Quase sempre descalço, o lavrador não chega a romper por ano um par de tamancos. O chapéu, que custa de seis a dez tostões, serve apenas nos dias de feira ou de romaria. No serviço, o lavrador usa a carapuça de lã no Inverno e o chapéu de palha, de vintém, no verão.

A parte o ouro que compram com as economias do casal e que, como o gado, é considerado fortuna comum, as mulheres gastam ainda menos do que os homens! Duas saias de chita clara, dois aventais com barras de veludo, um colete de riscado cor de rosa com guarnições de fitilho preto, um lenço farto para o seio e mais dois para a cabeça, são objectos que as mais pobres adquirem apenas duas vezes na vida: quando noivas e quando, mais tarde, casam o primeiro filho! As mais abastadas compram de dez em dez anos uma saia de baeta crepe, de ano a ano um lenço de seda, de dois em dois anos umas chinelas de verniz. São as pródigas.

Roupa branca, lençóis, toalhas e ainda as calças de uso dos homens saem do linho, da estopa ou dos tomentos – da teia fiada em casa. Em noites de luar, as mulheres fazem o seu serão á porta, economizando

A própria doença parece respeitar esse culto sagrado da economia dos lavradores do Minho. Mata-os a velhice. Quando entram na agonia, a família manda chamar o padre para os confessar e ungir. Depois do padre vem então o medico, que raro receita e as mais das vezes chega a tempo de verificar o óbito.

E assim morrem economicamente, como economicamente nasceram e viveram…


                               Por Manuel Abreu Castro          

                                                                          De                    
                                                                                bloguedominho
                                                                                  Carlos Gomes